quarta-feira, 3 de julho de 2013

A República de Estudantes e a Moto



Nosso prédio, por apresentar confortos como quadras de esportes, piscina, saunas, salão de festas e churrasqueira, precisava de uma infraestrutura condizente. Por causa disto o quadro de empregados era grande, com cerca de vinte empregados. Fora isto ainda tinha a parte de energia, abastecimento de agua e manutenção, fazendo o condomínio oneroso. Por esta razão, o aluguel era barato. Isto porque o proprietário que não morava no prédio, não queria ficar pagando a taxa de condomínio e os impostos para manter o apartamento fechado. E para o inquilino, o que importava era o custo mensal total, incluindo condomínio e taxas.
Além isto, ainda tinha as cotas extras que eram de responsabilidade dos proprietários. Como a oferta era grande, o aluguel era bastante atraente. Isto atraiu estudantes de fora da cidade do Rio de Janeiro, para fazer do apartamento uma república de estudantes, já que o aluguel, condomínio e taxas, divididos por cinco ou seis estudantes era bastante interessante. Mas tinha um problema. Na época, as unidades eram unifamiliar, portanto o procedimento era ilegal. Mas a primeira república de estudantes foi instalada assim mesmo. Eram cinco jovens rapazes, estudantes de medicina, cujos pais, do interior, os bancavam na cidade. No inicio não houve problemas, embora os moradores reclamassem preocupados com o futuro. Eles também eram motoqueiros, o que facilitava o transporte pela cidade. Ocorre que o prédio tinha uma vaga, sem demarcação para cada apartamento e ficou combinado que eles ocupariam uma vaga onde seriam estacionadas as três motos. Como motoqueiro tem amigos motoqueiros, era constante a chegada dos mesmos para visita aos amigos. Para variar, estacionavam as suas motos nas vagas destinadas aos demais moradores. Isto sempre causava transtornos, principalmente no final do dia, quando a maioria dos moradores retornava do serviço. Certa feita, um visitante dos estudantes, parou a sua moto grande dentro da garagem, ocupando inteiramente uma vaga. Os moradores chegando e nada de encontrar vagas, porque além da moto, alguns moradores espertos, com dois ou mais veículos estacionavam dentro do prédio. Mas o caso da moto era visível. Revolta geral. Chamam o síndico. O homem esbravejou perguntando ao zelador de quem era a moto em questão. Com a identificação que era um visitante dos rapazes da república, o zelador ligou o interfone para o apartamento, informando que fosse retirada a moto. O visitante, dono da moto, lutador de artes marciais, respondeu que não tinha macho no mundo que o fizesse fazer isto. O síndico, irritado com a resposta, chamou três empregados e colocou a moto na rua. Depois, mandou o zelador ligar para o apartamento e dizer que o macho jogou a moto dele na rua e que estava esperando na portaria. Recado dado, o visitante conferiu, pela janela do apartamento que realmente sua moto estava fora do prédio. Bufando, ele foi para o elevador dizendo que ia quebrar o sindico. Foi contido pelos amigos que avisaram que o homem era fogo e contaram a história dos tiros da quadra de esportes. Tratava-se do mesmo personagem. Daí as coisas foram piorando, de amigos para namoradas e outras do gênero. Isto atraiu outros grupos de estudantes dispostos a alugar outros apartamentos. Os moradores preocupados pediram uma assembleia extraordinária. Mas para surpresa da maioria, alguns moradores gostavam da ideia de compartilhar o aluguel como uma república. Isto financeiramente era melhor e mais fácil de alugar. Com a assembleia dividida restou ao síndico fazer o seguinte pronunciamento: iria convidar umas primas de Copacabana, conhecida também pela prostituição, para alugarem apartamentos no prédio, num novo mercado na zona norte da cidade. Foi um escândalo, mas o fato é que o problema foi resolvido. Expulsaram do prédio os rapazes, futuros médicos, e a paz voltou a reinar.