O Cirurgião Boxeador
No nosso prédio moravam muitos profissionais
liberais, tais como advogados, engenheiros e principalmente médicos. Estes eram das mais
diversas especialidades, tais como, pediatras, ortopedistas, anestesistas e cirurgiões.
Isto era bom, porque facilitava a vidas dos condôminos as voltas com os seus
problemas de saúde. Estes profissionais eram um achado para os moradores porque
sempre os consultavam informalmente. Por causa das partidas de voleibol, a
amizade entre todos fizeram com que os atletas tivessem apelidos. Tinha o João
da vista, oftalmologista, o Zeca Vampiro, hematologista, o Murilinho quebra
pernas, ortopedista e até mesmo o Ronaldo Xaninha, o ginecologista. Mas a nossa
história de hoje foi com o Mauro Canivete, o cirurgião. Estressado ao extremo
em função da especialidade, tinha plantões de vinte quatro horas em alguns
hospitais da cidade. Os horários eram os mais diversos e as cirurgias tinham
hora para começar, mas não para terminar. E o mais frustrante era que após uma
cirurgia, que durava doze ou mais horas, às vezes muito bem sucedida, terminava
com o falecimento do paciente por outras razões. Isto o deixava profundamente
chateado. Num dos retornos de seu plantão, exausto, chegou por volta do meio
dia, almoçou e foi descansar, já que por volta das vinte duas horas do mesmo dia,
fora convocado para uma cirurgia de urgência. Ao começar a dormir foi
surpreendido por um barulho seco e constante de uma bola batendo na pilastra do
prédio. Como morava no segundo andar, o barulho incomodava demais. Levantou
de imediato e foi a varanda da suíte verificar a causa do transtorno. Viu três
garotos de cerca de dezesseis anos, batendo bola para o gol, que neste caso era
a pilastra do prédio. Advertiu os moleques que precisava dormir e que eles usassem
a quadra de esportes existente no prédio. A turma em vez de acatar o pedido,
simplesmente continuaram a brincadeira e ainda o xingaram. Ele de temperamento explosivo resolveu descer
e tirar satisfações. Ele, quando jovem, tinha praticado o Box, tendo inclusive
participado de algumas competições. Ao chegar, furioso, partiu para os garotos,
que pareciam adultos, pelo porte. Dois deles ficaram na deles aguardando os
acontecimentos. Mas o terceiro partiu para briga, sem mesmo respeitar a idade
do homem com cerca de quarenta e cinco anos. O cirurgião, com uma direita,
acabou com o nariz do brigão, que com o sangue jorrando, começou a chorar e pedir
pela mãe. Os outros rapazes partiram em disparada. Como os pais do rapaz com o
nariz arrebentado, estavam no trabalho, o próprio médico o levou a um hospital
para fazer a cirurgia corretiva. Mais tarde, por volta das seis, retornou com o
rapaz ao prédio. Embora tenha pedido desculpas pelo ocorrido, os pais não o
perdoaram. Um processo longo e dispendioso se arrastou por anos. No final, o
julgamento concluiu que o estresse motivado pelo tipo de atividade do médico,
tinha sido a causa do problema. Foi determinada a distribuição de cestas
básicas mensais às instituições de caridade determinadas pela justiça por um período
de um ano. A vida voltou ao normal, mas no prédio todos passaram a respeitá-lo.



