domingo, 12 de maio de 2013


Motel das Estrelas


Como mencionei em outras ocasiões, a maioria dos moradores eram jovens  casados com filhos pequenos, que estavam iniciando as suas vidas. 

Os apartamentos eram o sonho de consumo destes jovens casais de classe média. 

Mas uma boa parte dos moradores já eram casais com filhos adolescentes.  

Garotas e rapazes com os hormônios a mil, ainda sem idade para dirigir e com pouca grana para um motel. 

O prédio tinha tudo  para satisfazer esta garotada. 

Garagens mal iluminadas, jardins, saunas, salões, etc.  

Os amassos aconteciam de dia e de noite. 

Mas o suprassumo era o motel das estrelas, localizado no terraço de cada uma das torres, junto as caixas de água. 

Explico: o local era fechado, mas não por chave, por exigência do Corpo de Bombeiros. 

O agravante era de que crianças eram vistas constantemente nos terraços que não tinham proteção adequada. 

Completa privacidade. Só o céu e as estrelas. 

A garotada transava por ali sem problemas. 

Tinham um pacto com os colegas com horários predefinidos para maior comodidade. 

Mas eram desleixados. 

Camisinhas e calcinhas eram encontradas sempre. 

Isto irritava o síndico que queria trancar a bendita porta com cadeados. 

Ocorria um fato de maior gravidade. 

Deixavam a porta totalmente aberta, que embora sem trancas,  aguçava a curiosidade dos pirralhos menores de doze anos. 

Por isto mesmo, o sindico ordenou que o zelador fizesse sempre uma inspeção nos terraços. 

Numa destas, a luz do dia, o zelador fraguou um casalzinho na maior transação. 

O que mais o surpreendeu foi que a garota, que estava de  jeans, tirou apenas umas das pernas da calça. 

Ela ficou sem graça e sem ação pela inusitada situação. 

O garoto esbravejou e pediu ao homem que esperasse ele terminar.

Fim da historia: o síndico lacrou o lugar com cadeados, mesmo sem a autorização  do Corpo de Bombeiros. 

Mas a habilidade da garotada foi maior. 

Passaram a pegar a chave com o zelador mediante a um pequeno suborno. 

E a vida foi levando.

terça-feira, 7 de maio de 2013


Banco de uma perna só.


Um condomínio grande como este tem cerca de setecentos pessoas entre jovens, crianças e adultos.

Além de empregados e prestadores de serviços e sem contar com as entregas delivery.

Por isto mesmo tinha um quadro de porteiros atentos, vinte quatro horas tanto na portaria principal como na garagem. 

Contávamos ainda com um vigia noturno,.

Como de costume, era um empregado que trabalhava durante o dia em outro emprego e a noite faz um bico para melhorar o salário. 

Estes, por razões óbvias, dormiam como anjos nas madrugadas. 

A suposta solução para o problema foi instalar relógios de ponto estratégicos nos mais diversos lugares como o play ground, os pisos das garagens, a coberturas, portarias e etc. 

A cada hora o ponto deveria ser registrado. 

Aparentemente funcionava. 

No dia seguinte ao plantão os relógios eram conferidos sem nenhuma ressalva. 

Ocorre que sempre que um morador precisava do vigia, ele era procurado e encontrado no alojamento dos empregados dormindo como uma criança.

Intrigado o sindico começou uma investigação e descobriu que os porteiros noturnos, faziam o registro a cada hora com o cartão do colega mediante a pequenos favores, como cigarros, cervejas e etc. 

O sindico descobriu também que os porteiros noturnos também dormiam. 

Na época ainda não existia o circuito interno de TV. 

A solução encontrada pelo sindico foi hilária. 

Por volta da meia noite, uma galera de pré-adolescentes ficava em frente a portaria aguardando  o momento sublime. 

É que o sindico mandou fazer bancos com uma perna só. 

Durante o cochilo, o porteiro perdia o equilíbrio e se espatifava no chão sob  as gargalhadas da garotada que se divertia a valer.

sábado, 4 de maio de 2013



Novela Mexicana.



Com muitos moradores, cada um tem a sua história particular.  

Gumercindo, vindo da Parnaíba, Piauí, certa vez, em uma roda de vizinhos, contou a sua.  

Tinha vindo para o Rio de Janeiro, no inicio dos anos setenta, em busca nas de emprego na construção civil. 

Deixou a mulher e um casal de filhos, e com dinheiro contado para a passagem de ida, refeições baratas e hospedagem numa pensãozinha barata, por no máximo uma semana. 

Como não tinha nenhuma habilidade profissional, a semana passou rápida e o dinheiro acabou. 

Para sobreviver, percebeu que muitos, catavam papelão nas lojas do centro para revenda e pernoitavam em baixo das marquises. 

Um dia, a loja em que ele dormia sempre, foi assaltada, tendo os larápios invadido a mesma pelos fundos. 

Era uma loja de autopeças, que percebeu que varias peças haviam sido surrupiadas. 

O proprietário, preocupado com o fato, pediu ao catador de papelão que pernoitasse dentro da loja, de forma a espantar os gatunos, além de dormir protegido da chuva e do frio, em troca de um café da manha, que consistia de uma média de café com leite e um pão com manteiga. 

E assim prosseguiu sua vida, catando papel durante o dia e como vigia da loja, à noite. 

Logo percebeu que se tratavam  de quatro lojas, em diferentes bairros e em franca expansão. 

Certo dia, ao abrir a loja, o proprietário   percebeu que dois dos seus cinco empregados não haviam comparecidos. 

Como era dia de muito movimento, o dono da loja ofereceu a proposta de que ele ficasse como ajudante neste dia e em troca seria pago o mesmo que ele retirava na coleta dos papelões. 

No outro dia, tudo se repetiu e nos próximos  também, até que um dos funcionários  faltosos, precisou se afastar por um período maior para tratamento de saúde.  

Neste período, Gumercindo ganhou a confiança do proprietário que prospera com  novas lojas. 

Em pouco tempo ele já nem se lembrava que catava papelão. 

Com um salário razoável,  mandou buscar a patroa e os dois filhos no Piaui. Tudo corria bem. 

O patrão prosperava e deu lhe, em gratidão, uma pequena participação no negocio que chegou a trinta lojas de autopeças espalhadas pelos mais diversos bairros e municípios. 

Gumercindo comprou o seu primeiro carro e pouco tempo depois um apartamento de classe média.  

Os filhos já estavam na faculdade e o mais velho, Gumercindinho, logo se formou em Advocacia. 

Casou em seguida, depois de um curto namoro com Dorothéa, uma sirigaita do subúrbio. 

Tudo ia muito bem até que o destino mudasse tudo. 

Numa de suas inúmeras viagens a São Paulo, para compra de autopeças, aconteceu um acidente aéreo com todos mortos. 

O proprietário da cadeia de lojas não tinha herdeiros e a viúva não tinha como tocar o negócio. 

Até tentou com a ajuda do Gumercindo. 

Mas faltou a habilidade e experiência do dono. 

Gumercindo, já aposentado pelo INSS, viu tudo ruir em menos de um ano.  

Mas com apartamento próprio a aposentadoria e os filhos independentes, deu  para sobreviver. 

Mas o destino, mais uma vez, pregou-lhe uma peça. 

Raimunda, a filha mais nova, acabara a pouco, o curso de engenharia civil. 

Já estagiária de uma grande construtora foi logo contratada. 

De capacete e uniforme foi atropelada e  morta, ao atravessar uma avenida de grande movimento. 

Desde então, o casal da Parnaíba, entrou em profunda depressão. 

Para piorar, Gumercidinho, separou-se de Dorothéa e foi viver com Josenildo, um antigo amigo de infância e morador do mesmo prédio.

                                                 


O Paraíba e sua viola.



O prédio tinha uma equipe de cerca de vinte empregados entre porteiros, zelador e a turma da faxina. 

Por comodidade dos empregados e do próprio condomínio, eles moravam em um alojamento que na verdade, eram duas salas existentes na garagem superior e inferior. 

Nelas foram instaladas camas beliches e alguns armários de aço, com chaves para que os empregados guardassem os seus pertences. 

A rotatividade neste tipo de atividade e muito intensa. Por isto mesmo eram comuns as  demissões e admissões, embora alguns empregados permanecessem no prédio por anos. 

Esta atividade e em grande maioria, no Rio de Janeiro, era exercida por Nordestinos e função da migração motivada por empregos.  

A denominação Paraíba, como sugere o título do artigo não é pejorativa. 

Muito pelo contrário, trata-se de um povo honesto e trabalhador. 

Certo dia, o síndico inconformado com o trabalho de um empregado vindo da Paraíba solicitou ao zelador que providenciasse a sua demissão, antes de partir para o seu trabalho. 

O zelador ligou para a administradora do condomínio e pediu parra que providenciassem a demissão do empregado,  quando foi informado da necessidade de que o mesmo se apresentasse ao local para a formalização do fato.

 O Paraíba, ao se informado, cantarolou  com a sua viola :

"Daqui não saio daqui ninguém me tira....."



Ao chegar do trabalho no fim do dia, o sindico, indagou ao zelador sobre o empregado. 

Ao ser informado dos fatos ocorridos, o mesmo, furioso, adentrou no alojamento dos empregados, encontrando o dito cujo, sentado na cama beliche, cantarolando acompanhado de sua viola. 

O sindico esbravejou, pisou firme na cama beliche quebrando-a. 

O Paraíba saiu igual a uma bala, pela porta da garagem, para pegar o caminho da rua. 

O sindico irritado pegou a viola e a mala do Paraíba e jogou no meio da rua. 

Carros destruiriam a sua viola e suas roupas foram espalhadas pela rua. 

Os demais empregados assustados assistiam a tudo. 

Dai o sindico falou: o que estão olhando? Não têm o que fazer? Todos se retiraram rapidamente. 

O Paraíba não voltou, mas quase um ano depois o condomínio recebeu uma comunicação do Ministério do Trabalho sobre a reclamação trabalhista.

Todos os seus direitos foram pagos, mas o Paraíba perdeu sua viola e suas roupas.

sexta-feira, 3 de maio de 2013



O botequim ao lado.



Como não poderia deixar de ser, existia um botequim de um português, o seu Manuel.

Ele abastecia os apartamentos de refrigerantes e cervejas que eram ali consumidos ou trazidos para suas residências sem pagamento. 

As compras eram anotadas num caderno velho e sujo, cujas folhas eram tituladas com os números dos apartamentos consumistas.   

Era o paraíso das por causa das balas e guloseimas e ponto de encontro dos chefes de família que faziam dali o seu Happy Hour a cada chegada do trabalho. 

Ali se discutia futebol, política e como esperado, o assunto predileto da galera: mulher.  

A mulherada do prédio ficava uma fera, porque sabiam do que rolava e ia ate tarde o que atrasava o jantar que coincidia com o horário das novelas. 

No final do mês, os consumistas pagavam as suas contas, fechadas no velho caderno. 

O engraçado e que o seu Manuel incluía na soma, feita com a lápis preso na orelha, o numero do apartamento, só percebido pelos moradores depois que o morador do 1801 protestou. 

Nesta época, por causa da inflação a moeda era infame. 

Um quilo de file custava 5 mil cruzados. 

Vários fatos marcaram o lugar. 

Certa vez entrou um novo morador do predigo no botequim e solicitou a carta de vinhos, no que de pronto, respondeu o seu Manuel: temos carta de baralhos para jogar 21. 

Vinho tem o Sangue de Boi de garrafão muito apreciado pelos gajos. 

Noutra feita, a bronca de um prestador de serviço. 

O boteco servia refeições barata para o pessoal que  trabalhava nas obras ao redor e aos próprios empregados do prédio.   

O homem trabalhava com o seu irmão numa obra do prédio. 

Para não parar o serviço, um almoçava antes,  e o outro depois. 

Sempre o mesmo horário, 11,30 h chegava o irmão para o almoço. 

Ás 12,00 horas chegava o homem. Uma rotina. 

Pedia um conhaque, para abrir o apetite e depois a gororoba (comida). 

No final do dia, outro conhaque para relaxar, só para ele, sempre acompanhado pelo irmão. 

Neste dia, depois de pedir o conhaque, o homem esbravejou: Se deres conhaque para o meu irmão no almoço vou-lhe  quebrar.    

O que seu Manuel nada entendeu, respondendo apenas: ora, pois pois. 

Mas a bronca feia foi por parte o síndico.

Embora brigão e turrão, tinha um coração enorme. 

Percebendo a dificuldade dos empregados ele solicitou em Assembleéia uma verba para a comida dos empregados, o que foi aprovado.  

Nesta época ainda não existia a obrigatoriedade do vale refeição, beneficio concedidos, na época, somente por grandes corporações.  

O síndico, fez então uma parceria com o seu Manuel, que fornecia as refeições para os empregados e ao final do mês era reembolsado. 

Numa feita, o síndico decidiu tomar uma cervejinha gelada no boteco. 

Enquanto aguardava o seu Manuel trazer a mesma ele  pode observar que diversos empregados bebericavam a cerva além de consumirem cigarros. 

O malandro do Portuga aceitava o vale refeição em troca de fumo e bebidas. 

O convenio acabou e o síndico resolveu montar uma cozinha. 

Mas isto e outra historia.

               
O Condomínio

Nosso condomínio fictício e um prédio grande com 18 andares e 140 apartamentos com aproximadamente 700 pessoas entre adultos, idosos crianças, aborescentes, empregados e prestadores de serviços.   


O condomínio, como nao poderia deixar de ser, possui piscina, saunas, quadra polivalente e churrasqueira de modo a propiciar uma convivência comum no intuito de motivar amizades, namoros, mas também fruto de muita discórdia e confusão. 

Com cerca de 20 empregados que moram e vivem no prédio em instalações bem simples e com a convivência de empregadas e patrões, o dia a dia e agitado. 
 
O condomínio em questão fica em um bairro tradicional, reduto da classe media no Rio de Janeiro. 

O bairro, no passado, propiciava aos moradores as facilidades de convivência, pelos clubes, praças e cinemas   com festas tradicionais e comemorações. 

Tudo começava nas brincadeiras nos parquinhos das praças  passando para grandes amizades e ate mesmo noivados e casamentos, sem contar com os amantes sedutores e apaixonados. 

Hoje, talvez por segurança, tudo isto migrou para os prédios e sua infraestrutura. 

Nosso prédio e novo, recém-habitado, financiado a perder de vista, com moradores jovens, recém-casados, alguns com filhos pequenos.

Na primeira reunião para instalação do condomínio, foi aprovado o regulamento interno, inspirado no regimento de colégios de freiras, fora da realidade de nossos dias.


Foi o rpincipal  responsável pelos problemas diários de convivência mas que permitiu a realização desta obra.


CRÔNICAS DE UM SINDICO ESTRESSADO

Apresentação


Crônicas de um síndico estressado e uma coletânea de histórias, algumas verídicas, outras, quase verdades,  acontecidas no dia a dia de  um condomínio fictício na gestão de um síndico super estressado. 

Estas crônicas foram possíveis, graças a experiência vivenciada pelo autor, como síndico e subsíndico de diversos prédios em que morou durante os seus 60 anos de vida. 

Foram anos e anos de convivência com condôminos das mais diversas culturas, credos, posição social e instrução nos mais diversos condomínios, grandes, pequenos, de apartamentos ou casas. 

A estes, o meu muito obrigado. 

Sem a convivência com eles seria impossível a transcrição das crônicas apresentadas.


O autor, iniciou sua vida de sindico aos 25 anos em um prédio com somente doze apartamentos e mil problemas. 

Dai para frente foram prédios grandes, pequenos e condomínios de casa na praia e na serra.

O autor e engenheiro aposentado e professor.


Rio de Janeiro abril de 2013.