Tiros na Quadra de Esportes.
O Brasil vivia uma febre de esportes,
principalmente o voleibol. Equipes do país ganhavam campeonatos e isto era
notícia diária. Seleções masculina e feminina levavam o publico ao delírio.
As transmissões ao vivo era o que garantia o faturamento das emissoras e dos anunciantes.
Por isto mesmo, o nosso prédio foi concebido para acolher estes torcedores fanáticos por esportes.
Tinha a uma quadra de esportes poliesportiva para voleibol, basquete e futebol de salão.
A de basquete quase nunca era usada e a de futebol de salão as vezes. Mas a de voleibol bombava.
Era praticamente impossível jogar na quadra.
Ou você pertencia a uma turma ou nada feito.
Mesmo assim eram constantes as brigas por horários disponíveis.
Neste contesto era comum o uso da quadra até altas horas, embora o regulamento fixasse em até as vinte duas horas.
Isto porque as turmas que perdiam sempre queriam uma revanche.
Isto acontecia praticamente todas as noites e as reclamações não paravam.
O zelador, coitado, morando no prédio, até tentava convencer os esportistas a cumprir o regulamento.
Mas não tinha jeito, era até ameaçado.
O sindico para não se aborrecer, deixou levar, até porque o barulho não o incomodava, já que o apartamento dele era no outro bloco, em direção oposta à quadra.
Uma noite, um vizinho, morador do primeiro andar, de frente para a quadra e com dois filhos muito pequenos, resolveu reclamar diretamente com os esportistas.
Ocorre que além do barulho dos gritos e palavrões que acordavam os seus pimpolhos frequentemente a bola caia em sua varanda, justamente na suíte do casal.
A galera usava o poste dos refletores de iluminação para galgar a sua varanda para pegar a bola.
As vezes até flagrando o casal em suas intimidades.
Ele, desesperado, primeiro partiu para uma solução engraçada.
Passou graxa de automóvel na parte superior do poste que dava acesso a sua varanda.
A garotada subia para pegar a bola e quando estavam quase lá, escorregavam direto para o chão, além de saírem sujos de graxa.
A turma tinha então que ligar o interfone para ele pedindo a bola.
Ele só a devolvia no dia seguinte o que inviabilizava a continuidade do jogo.
Este clima de tensão só incitava os ânimos.
Mas esta noite estava fadada para o pior.
O morador chegou cansado do trabalho e as crianças estavam com dificuldades para dormir.
Depois de um bom tempo, finalmente elas pegaram num sono de anjos.
Mas durou pouco.
Brigas e arremessos fortes na bola fizeram as crianças acordarem aos gritos de choro.
O morador, indignado, chegou na varanda aos berros pedindo que parassem o jogo. Isto já passava da meia noite.
Os jovens adolescentes, inclusive as garotas que sempre assistiam às partidas da arquibancada, responderam em coro: “vai dormir velho veado”.
Isto para um nordestino é uma ofensa muito grave.
Dizem que no nordeste não tem “gay”. Vieram todos para o Rio de Janeiro e São Paulo.
E esta piada enfurecia ainda mais o homem.
E o cara nem era assim tão velho, perto dos quarenta.
Mas para a moçada isto já é idade de ancião.
Como ele, quando jovem, tinha sido militar, possuía um porte de arma, e uma pistola “Magnum” de quinze tiros.
Além disto era praticante, nos fins de semana, de um clube de tiro.
Raivoso, de arma em punho, desceu pelas escadas sem mesmo esperar pelo elevador.
Lá chegando deu dois tiros para o alto e metralhou um dos refletores.
A garotada em bando subiu aos gritos para os seus apartamentos.
No outro dia a confusão estava formada.
Pais indignados queriam dar parte à polícia.
O síndico, um vaselina costumaz, botou panos quentes.
E a coisa foi esfriando embora o relacionamento dele com o resto dos moradores era de desprezo total.
Numa reunião de condomínio para tratar do caso ele pediu desculpas e ficou de pagar pelo refletor abatido a tiros.
Mas uma coisa ficou para sempre: o apelido dado pela garotada: “Billy de Kid”. Atira primeiro, conversa depois.
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