quinta-feira, 13 de junho de 2013


O Furto de Água


O nosso prédio, com cento e quarenta apartamentos tem um consumo de água bastante expressivo. 

Coisa de uns setenta mil litros por dia, considerando um consumo médio de quinhentos litros por unidade. 

E o valor da conta e bastante alto,  cerca de vinte mil reais por mês, a valores de 2013. 

Na maioria dos prédios é a mais relevante conta do condomínio, superando até mesmo a folha de pagamento. 

Por isto mesmo e motivo de preocupação e monitoramento diário para evitar desperdícios. 

Certa feita, no fim de semana que inicia o carnaval, fomos surpreendidos pela concessionária local que estaríamos sem abastecimento de água durante todo o feriado que se prolongaria ate a quarta feira de cinzas. 

Isto era necessário para que eles providenciassem reparos na rede. 

E o período tinha sido escolhido exatamente por ser um feriado prolongado onde a maioria das pessoas viaja. 

Neste contexto restou fazer um alerta a todos os moradores e iniciar um racionamento em horários pré-definidos.  

Na própria sexta feira iniciamos o racionamento. 

Ocorre que os moradores viajaram em horários os mais diversos: pela manha, à tarde e a maioria à noite. 

Muitos deles, dezoito para ser mais exato, tentaram usar as torneiras antes de viajar e como não tinha água em razão do racionamento, esqueceram de fechar as mesmas. 

Na manhã de sábado é que percebemos o problema, já que a água escapava rapidamente das caixas, fazendo com que a nossa reserva nas cisternas, existentes no subsolo, ficassem comprometidas. 

Não houve outro jeito, chamamos um chaveiro e junto com testemunhas arrombamos os dezoito apartamentos para fecharmos as torneiras dos lavatórios e cozinha que se encontravam abertos. 

Era fácil perceber quais os apartamentos apresentavam este problema, bastando colocar o ouvido na porta de serviço, uma vez que, com prédio vazio o silencio era total. 

A conta do chaveiro foi colocada em cada um dos apartamentos infratores e era bastante salgada, pois se tratava de uma emergência.  

Sabíamos que teríamos problemas quando do retorno desses moradores, mas não tivemos alternativa. 

Mas isto não era tudo. O pior viria no domingo de carnaval. 

A água simplesmente acabou. 

Comprar pipa de água, nem pensar. 

Além de muito caro, o volume por carro pipa é muito pequeno face ao tamanho de nossas caixas. 

Foi a maior confusão. 

Uma parte dos moradores debandou viajando para casas de amigos ou mesmo uma pousadinha na montanha que tivesse ainda vaga. 

Mas uma grande parte ficou. 

Começamos então uma operação de guerra, usando a água da piscina, tirada com baldes para usar nos vasos sanitários, naquela altura, impróprios para uso. 

Todos passaram a comer em restaurantes. 

Apesar dos problemas, a turma não deixou de relaxar a beira da piscina. Afinal era Carnaval. 

Entre uma cerveja e outra verificamos que o prédio ao lado do nosso, que estava em construção, na verdade, já se encontrava pronto, embora sem moradores, uma vez que faltava a ligação de força (energia) pela concessionária local. 

Resolvemos ir ate lá onde falamos com o vigia que muito gentil nos deixou entrar. 

Para nossa surpresa, a cisterna do mesmo estava com água até a boca, por que a ligação de água já tinha sido providenciada. 

Até as bombas de recalque já estavam instaladas. 

Então tivemos a brilhante ideia de furtar esta água bendita. 

Mas tinha um problema: não tinha energia para fazer as bombas funcionarem. 

E mais outro: como levar a água até o nosso prédio. 

E tinha o vigia. Este foi o mais fácil. 

Com uma  pequena contribuição ele não faria nenhuma objeção. E então começamos a engenhar o nosso plano. 

Pensando em grupo foi mais fácil e logo chegamos a solução. 

Caso conseguíssemos fazer as bombas funcionarem, levaríamos água ate as caixas d’água da cobertura do prédio. 

Dai pela tubulação de incêndio do térreo ligaríamos as mangueiras de incêndio que são articuladas, até a cisterna do nosso prédio ao lado.  

Isto exigiria também, que depois de usadas, as mangueiras deveriam ser completamente secas, o que era problema para depois.  Mas como fazer as bombas funcionarem? 

O sistema de bombas exigia muita energia e precisaríamos de um cabo resistente e grande,  com cerca de cem metros, para podermos liga-lo a nossa rede de energia.  

Mas como era domingo, não tínhamos nem onde comprar o cabo e se esperássemos a segunda feira. seria inviável praticar o furto à luz do dia.  

Mas um dos moradores que trabalhava numa empresa de construção  civil, resolveu nos ajudar, indo até a mesma, buscar uma gambiarra muito usada nas obras para ligar equipamentos. 

Ligado os cabos, bombas funcionando, abrimos os registros de incêndio e nossa cisterna começou a encher. 

O plano tinha sido um sucesso. 

Depois, com as cisternas e caixas cheias, fomos ao mercado comprar mantimentos e cerveja, para o nosso churrasco de comemoração, que durou até a quarta feira de cinzas.



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