domingo, 26 de maio de 2013

O Administrador Burocrático


O nosso prédio, com 140 apartamentos, tinha porte para fazer a sua própria administração. 

A contratação de uma administradora era inviável e onerosa. 

Tínhamos até sala de administração. Com telefone, fax e computador só faltava contratar um a administrador.  

E assim fizemos. O sujeito era até competente, mas extremamente burocrático. 

Percebemos isto na primeira Assembléia do condomínio, após a sua contratação. 

Ele foi designado secretário, e como tal encarregado de fazer a ata. 

O presidente da Assembléia, de nome Diogo, aguardava pela bendita ata, para assiná-la, já que se passava mais de um mês da realização da mesma, e ele pretendia viajar de férias. 

Finalmente o documento chegou e o sr. Diogo liberou a mesma para publicação formal. 

Antes de publicar o administrador percebeu que o nome do presidente saiu como Digo e não Diogo. 

Como o homem tinha viajado  e só retornaria depois de um mês ele resolveu colocar um ”em tempo” ao final da redação. 

Assim o fez: onde digo digo, não digo digo, digo Diogo""

E foi objeto de piadas e gracejos. 

Já na época, vislumbrando o ambiente de câmeras em todo o prédio, que via em filmes americanos, solicitou ao síndico uma câmera fotográfica para registrar os fragrantes. 

Autorizado, começou a fotografar tudo: carros mal estacionados, lixo fora da lixeira e etc. 

Mas tinha um problema. As fotos eram reveladas. 

Por causa disto, ele comprava filmes de doze poses, para usar mais rapidamente

Para usar o filme todo ele gastava cerca de um mês para depois mandar para a revelação que durava três dias.

Por isto mesmo as fotos de carros mal estacionados, às vezes, não poderiam mais ser usadas, porque pelo tempo, já tinham sido vendidos, ou os moradores se mudado. 

Outro ponto foi a exigência para que os porteiros usassem ternos e gravatas em pleno calor do Rio de Janeiro. 

Explicava que isto dava um tom mais austero ao condomínio. 

O homem também era amante da natureza. Preocupado, já naquela época com a situação ecológica do planeta. 
I
Implantou um sistema de coleta seletiva de lixo, com depósitos dos mais diversos: papelão, vidros, latas de alumínio, metais, lixo orgânico, material de higiene pessoal como preservativos, absorvente e etc. 

Até um sistema de coleta de óleo de cozinha, que como sabemos é altamente poluente e prejudicial ao esgotamento de águas do prédio provocando entupimentos. 

E ele fazia isto com garra, publicando avisos e cartazes por todo o prédio. Era um percussor dos ecologistas de hoje. 

O material recolhido era vendido e o valor era depositado numa caderneta de poupança. 

No final do ano, no natal, estes recursos eram distribuídos aos empregados que por isto mesmo eram engajados na campanha. 

O homem tinha tudo escriturado. Compras só com três orçamentos, com assinatura e carimbo do sindico e concordância do conselho fiscal. 

Por isto, as coisas não andavam como deviam. A simples compra de essência de eucalipto para a sauna demorava uma semana. 

Para agilizar o processo mandou fazer carimbos para priorizar as tarefas: urgente e urgentíssimo. 

Para auxiliá-lo, contratou um estagiário de administração, obcecado por estatística. O garoto tinha um prato feito. 

Registros era o que não faltava. Faltas de empregados, cadastro de moradores e veículos, registro de visitantes, consumo de água e energia, coleta seletiva de lixo e etc.  

O burocra delirava com as estatísticas do estagiário com médias, desvios, gráficos  e etc.  

Tinha até o consumo de papel higiênico por empregado. 

E fazia questão de publicá-las. 

Certa feita, uma moradora verificando a estatística de material reciclado por andar e com abertura por material, ficou intrigada no item preservativo. 

Consumo médio mensal de  oito unidades no andar. 

Ocorre que nos quatro apartamentos por andar moravam: um casal sexagenário, uma viúva idosa, um padre, além dela e o marido.  

Com ela tinha feito a ligadura de trompas, após o segundo filho, e duas vezes por semana ela ia com os pequenos para a casa da mãe num bairro distante, ela ficou desconfiada. 

Começou então o cruzamento de dados naquela imensidão de informações. 

Verificando o livro de visitantes e as estatísticas, percebeu que nos dias que ela estava ausente, uma mesma mulher era recebida pelo morador, seu marido. 

De um bate boca partiu-se para a separação judicial, após a demissão do administrador burocrata. 

O morador em questão era o síndico.




terça-feira, 21 de maio de 2013


A moradora fogosa e o zelador português.

O zelador do prédio era o sr. Manuel, um português de Trás dos Montes, casado com a Dona Maria também da mesma região. 


Moravam no apartamento destinado ao zelador no térreo. 

Além de zelador  o seu Manuel era um faz tudo, consertando e fazendo pequenos reparos nos apartamentos dos moradores em troca de pequenas gorjetas que ajudavam no orçamento doméstico. 

Como não tinham filhos, a Dona Maria trabalhava como doméstica em um dos apartamentos. 

Numa ocasião, mudou-se para o prédio, um casal jovem e sem filhos. 

Ela, Gisele, uma loira, alta, de olhos azuis, falante e com um olhar de malícia.   

Ele, Roberval, reservado, trabalhava em plataforma de petróleo, com regime de quinze dias embarcado e quinze dias em terra. 

Como a Gisele não trabalhava, ficava angustiada nos períodos que o Roberval estava embarcado.  

Os dias não passavam e ela sem nada para fazer, ficava horas a ver novelas e revistas pensando em besteiras. 

Certa feita houve um vazamento na pia da suíte do casal. 

Ela apelou para o seu Manuel que providenciasse o conserto, marcado para o fim da tarde, quando largasse o serviço.  

Por volta das cinco horas da tarde, apareceu o seu Manoel devidamente equipado com a sua caixa de ferramentas. 

Abaixado para verificar o vazamento foi surpreendido sendo apalpado e abraçado por trás.

A levantar-se foi agarrado pelo pescoço e beijado. 

Assustado gritou: Ai Jesus, a Maria não pode saber. 

O português, na própria cama de casal, acalmou aquela potra fogosa no cio. 

Depois, um pouco cansado, providenciou o conserto, que era bem simples. 

Apenas a troca da carrapeta da torneira. 

Na mesma semana a torneira voltou a pingar e lá ia o seu Manoel fazer o conserto.  

Isto acontecia três e às vezes quatro vezes, nas quinzenas que o Roberval estava embarcado. 

Era engraçado que no período que o marido estava em casa, a torneira não pingava e nenhum reparo era necessário. 

Talvez era porque o Roberval mesmo fizesse o serviço, se é que vocês me entendem. 

A vida foi tocando, mas sorrisos e olhares marotos no elevador por parte da Gisele e o eu Manoel, começaram a aguçar a curiosidade das fofoqueiras de plantão, moradoras do prédio. 

Esta desconfiança chegou ao conhecimento de Dona Maria, que os flagrou na garagem, combinando outro conserto. 

"Oh Benedito", gritou ela,  com fúria: este canalha esta me traindo com esta cadela. 

Sou uma corna, disse e passou a bater no seu Manoel com raiva. 

Escândalo formado, não restou ao síndico, demitir o Manoel, dando-lhe três dias para que desocupasse o apartamento. 

O mesmo ocorrendo com a Dona Maria.

Gisele, aproveitando que o marido tinha  acabado de seguir para a plataforma, procurou um apartamento na praia num bairro distante. 

Entregou o apartamento, já que eram inquilinos, e tratou da mudança. 

Com se falavam, via rádio, uma vez por semana, explicou a Roberval que estava fazendo isto em razão da melhor qualidade de vida para o casal. 

Quando chegou, na semana seguinte, foi direto para o novo apartamento na praia. 

E a vida foi seguindo e não tivemos mais noticias do casal e dos vazamentos.

domingo, 12 de maio de 2013


Motel das Estrelas


Como mencionei em outras ocasiões, a maioria dos moradores eram jovens  casados com filhos pequenos, que estavam iniciando as suas vidas. 

Os apartamentos eram o sonho de consumo destes jovens casais de classe média. 

Mas uma boa parte dos moradores já eram casais com filhos adolescentes.  

Garotas e rapazes com os hormônios a mil, ainda sem idade para dirigir e com pouca grana para um motel. 

O prédio tinha tudo  para satisfazer esta garotada. 

Garagens mal iluminadas, jardins, saunas, salões, etc.  

Os amassos aconteciam de dia e de noite. 

Mas o suprassumo era o motel das estrelas, localizado no terraço de cada uma das torres, junto as caixas de água. 

Explico: o local era fechado, mas não por chave, por exigência do Corpo de Bombeiros. 

O agravante era de que crianças eram vistas constantemente nos terraços que não tinham proteção adequada. 

Completa privacidade. Só o céu e as estrelas. 

A garotada transava por ali sem problemas. 

Tinham um pacto com os colegas com horários predefinidos para maior comodidade. 

Mas eram desleixados. 

Camisinhas e calcinhas eram encontradas sempre. 

Isto irritava o síndico que queria trancar a bendita porta com cadeados. 

Ocorria um fato de maior gravidade. 

Deixavam a porta totalmente aberta, que embora sem trancas,  aguçava a curiosidade dos pirralhos menores de doze anos. 

Por isto mesmo, o sindico ordenou que o zelador fizesse sempre uma inspeção nos terraços. 

Numa destas, a luz do dia, o zelador fraguou um casalzinho na maior transação. 

O que mais o surpreendeu foi que a garota, que estava de  jeans, tirou apenas umas das pernas da calça. 

Ela ficou sem graça e sem ação pela inusitada situação. 

O garoto esbravejou e pediu ao homem que esperasse ele terminar.

Fim da historia: o síndico lacrou o lugar com cadeados, mesmo sem a autorização  do Corpo de Bombeiros. 

Mas a habilidade da garotada foi maior. 

Passaram a pegar a chave com o zelador mediante a um pequeno suborno. 

E a vida foi levando.

terça-feira, 7 de maio de 2013


Banco de uma perna só.


Um condomínio grande como este tem cerca de setecentos pessoas entre jovens, crianças e adultos.

Além de empregados e prestadores de serviços e sem contar com as entregas delivery.

Por isto mesmo tinha um quadro de porteiros atentos, vinte quatro horas tanto na portaria principal como na garagem. 

Contávamos ainda com um vigia noturno,.

Como de costume, era um empregado que trabalhava durante o dia em outro emprego e a noite faz um bico para melhorar o salário. 

Estes, por razões óbvias, dormiam como anjos nas madrugadas. 

A suposta solução para o problema foi instalar relógios de ponto estratégicos nos mais diversos lugares como o play ground, os pisos das garagens, a coberturas, portarias e etc. 

A cada hora o ponto deveria ser registrado. 

Aparentemente funcionava. 

No dia seguinte ao plantão os relógios eram conferidos sem nenhuma ressalva. 

Ocorre que sempre que um morador precisava do vigia, ele era procurado e encontrado no alojamento dos empregados dormindo como uma criança.

Intrigado o sindico começou uma investigação e descobriu que os porteiros noturnos, faziam o registro a cada hora com o cartão do colega mediante a pequenos favores, como cigarros, cervejas e etc. 

O sindico descobriu também que os porteiros noturnos também dormiam. 

Na época ainda não existia o circuito interno de TV. 

A solução encontrada pelo sindico foi hilária. 

Por volta da meia noite, uma galera de pré-adolescentes ficava em frente a portaria aguardando  o momento sublime. 

É que o sindico mandou fazer bancos com uma perna só. 

Durante o cochilo, o porteiro perdia o equilíbrio e se espatifava no chão sob  as gargalhadas da garotada que se divertia a valer.

sábado, 4 de maio de 2013



Novela Mexicana.



Com muitos moradores, cada um tem a sua história particular.  

Gumercindo, vindo da Parnaíba, Piauí, certa vez, em uma roda de vizinhos, contou a sua.  

Tinha vindo para o Rio de Janeiro, no inicio dos anos setenta, em busca nas de emprego na construção civil. 

Deixou a mulher e um casal de filhos, e com dinheiro contado para a passagem de ida, refeições baratas e hospedagem numa pensãozinha barata, por no máximo uma semana. 

Como não tinha nenhuma habilidade profissional, a semana passou rápida e o dinheiro acabou. 

Para sobreviver, percebeu que muitos, catavam papelão nas lojas do centro para revenda e pernoitavam em baixo das marquises. 

Um dia, a loja em que ele dormia sempre, foi assaltada, tendo os larápios invadido a mesma pelos fundos. 

Era uma loja de autopeças, que percebeu que varias peças haviam sido surrupiadas. 

O proprietário, preocupado com o fato, pediu ao catador de papelão que pernoitasse dentro da loja, de forma a espantar os gatunos, além de dormir protegido da chuva e do frio, em troca de um café da manha, que consistia de uma média de café com leite e um pão com manteiga. 

E assim prosseguiu sua vida, catando papel durante o dia e como vigia da loja, à noite. 

Logo percebeu que se tratavam  de quatro lojas, em diferentes bairros e em franca expansão. 

Certo dia, ao abrir a loja, o proprietário   percebeu que dois dos seus cinco empregados não haviam comparecidos. 

Como era dia de muito movimento, o dono da loja ofereceu a proposta de que ele ficasse como ajudante neste dia e em troca seria pago o mesmo que ele retirava na coleta dos papelões. 

No outro dia, tudo se repetiu e nos próximos  também, até que um dos funcionários  faltosos, precisou se afastar por um período maior para tratamento de saúde.  

Neste período, Gumercindo ganhou a confiança do proprietário que prospera com  novas lojas. 

Em pouco tempo ele já nem se lembrava que catava papelão. 

Com um salário razoável,  mandou buscar a patroa e os dois filhos no Piaui. Tudo corria bem. 

O patrão prosperava e deu lhe, em gratidão, uma pequena participação no negocio que chegou a trinta lojas de autopeças espalhadas pelos mais diversos bairros e municípios. 

Gumercindo comprou o seu primeiro carro e pouco tempo depois um apartamento de classe média.  

Os filhos já estavam na faculdade e o mais velho, Gumercindinho, logo se formou em Advocacia. 

Casou em seguida, depois de um curto namoro com Dorothéa, uma sirigaita do subúrbio. 

Tudo ia muito bem até que o destino mudasse tudo. 

Numa de suas inúmeras viagens a São Paulo, para compra de autopeças, aconteceu um acidente aéreo com todos mortos. 

O proprietário da cadeia de lojas não tinha herdeiros e a viúva não tinha como tocar o negócio. 

Até tentou com a ajuda do Gumercindo. 

Mas faltou a habilidade e experiência do dono. 

Gumercindo, já aposentado pelo INSS, viu tudo ruir em menos de um ano.  

Mas com apartamento próprio a aposentadoria e os filhos independentes, deu  para sobreviver. 

Mas o destino, mais uma vez, pregou-lhe uma peça. 

Raimunda, a filha mais nova, acabara a pouco, o curso de engenharia civil. 

Já estagiária de uma grande construtora foi logo contratada. 

De capacete e uniforme foi atropelada e  morta, ao atravessar uma avenida de grande movimento. 

Desde então, o casal da Parnaíba, entrou em profunda depressão. 

Para piorar, Gumercidinho, separou-se de Dorothéa e foi viver com Josenildo, um antigo amigo de infância e morador do mesmo prédio.

                                                 


O Paraíba e sua viola.



O prédio tinha uma equipe de cerca de vinte empregados entre porteiros, zelador e a turma da faxina. 

Por comodidade dos empregados e do próprio condomínio, eles moravam em um alojamento que na verdade, eram duas salas existentes na garagem superior e inferior. 

Nelas foram instaladas camas beliches e alguns armários de aço, com chaves para que os empregados guardassem os seus pertences. 

A rotatividade neste tipo de atividade e muito intensa. Por isto mesmo eram comuns as  demissões e admissões, embora alguns empregados permanecessem no prédio por anos. 

Esta atividade e em grande maioria, no Rio de Janeiro, era exercida por Nordestinos e função da migração motivada por empregos.  

A denominação Paraíba, como sugere o título do artigo não é pejorativa. 

Muito pelo contrário, trata-se de um povo honesto e trabalhador. 

Certo dia, o síndico inconformado com o trabalho de um empregado vindo da Paraíba solicitou ao zelador que providenciasse a sua demissão, antes de partir para o seu trabalho. 

O zelador ligou para a administradora do condomínio e pediu parra que providenciassem a demissão do empregado,  quando foi informado da necessidade de que o mesmo se apresentasse ao local para a formalização do fato.

 O Paraíba, ao se informado, cantarolou  com a sua viola :

"Daqui não saio daqui ninguém me tira....."



Ao chegar do trabalho no fim do dia, o sindico, indagou ao zelador sobre o empregado. 

Ao ser informado dos fatos ocorridos, o mesmo, furioso, adentrou no alojamento dos empregados, encontrando o dito cujo, sentado na cama beliche, cantarolando acompanhado de sua viola. 

O sindico esbravejou, pisou firme na cama beliche quebrando-a. 

O Paraíba saiu igual a uma bala, pela porta da garagem, para pegar o caminho da rua. 

O sindico irritado pegou a viola e a mala do Paraíba e jogou no meio da rua. 

Carros destruiriam a sua viola e suas roupas foram espalhadas pela rua. 

Os demais empregados assustados assistiam a tudo. 

Dai o sindico falou: o que estão olhando? Não têm o que fazer? Todos se retiraram rapidamente. 

O Paraíba não voltou, mas quase um ano depois o condomínio recebeu uma comunicação do Ministério do Trabalho sobre a reclamação trabalhista.

Todos os seus direitos foram pagos, mas o Paraíba perdeu sua viola e suas roupas.