O nosso prédio, com 140 apartamentos, tinha
porte para fazer a sua própria administração.
A contratação de uma
administradora era inviável e onerosa.
Tínhamos até sala de administração. Com
telefone, fax e computador só faltava contratar um a administrador.
E assim fizemos. O sujeito era até competente,
mas extremamente burocrático.
Ele foi designado secretário, e como tal encarregado de fazer a ata.
O presidente da Assembléia, de nome Diogo, aguardava pela bendita ata, para assiná-la, já que se passava mais de um mês da realização da mesma, e ele pretendia viajar de férias.
Finalmente o documento chegou e o sr. Diogo liberou a mesma para publicação formal.
Antes de publicar o administrador percebeu que o nome do presidente saiu como Digo e não Diogo.
Como o homem tinha viajado e só retornaria depois de um mês ele resolveu colocar um ”em tempo” ao final da redação.
Assim o fez: onde digo digo, não digo digo, digo Diogo"".
E foi objeto de piadas e gracejos.
Já na época, vislumbrando o ambiente de câmeras em todo o prédio, que via em filmes americanos, solicitou ao síndico uma câmera fotográfica para registrar os fragrantes.
Autorizado, começou a fotografar tudo: carros mal estacionados, lixo fora da lixeira e etc.
Mas tinha um problema. As fotos eram reveladas.
Por causa disto, ele comprava filmes de doze poses, para usar mais rapidamente.
Para usar o filme todo ele gastava cerca de um mês para depois mandar para a revelação que durava três dias.
Por isto mesmo as fotos de carros mal estacionados, às vezes, não poderiam mais ser usadas, porque pelo tempo, já tinham sido vendidos, ou os moradores se mudado.
Outro ponto foi a exigência para que os porteiros usassem ternos e gravatas em pleno calor do Rio de Janeiro.
Explicava que isto dava um tom mais austero ao condomínio.
O homem também era amante da natureza. Preocupado, já naquela época com a situação ecológica do planeta.
I
Implantou um sistema de coleta seletiva de lixo, com depósitos dos mais diversos: papelão, vidros, latas de alumínio, metais, lixo orgânico, material de higiene pessoal como preservativos, absorvente e etc.
Até um sistema de coleta de óleo de cozinha, que como sabemos é altamente poluente e prejudicial ao esgotamento de águas do prédio provocando entupimentos.
E ele fazia isto com garra, publicando avisos e cartazes por todo o prédio. Era um percussor dos ecologistas de hoje.
O material recolhido era vendido e o valor era depositado numa caderneta de poupança.
No final do ano, no natal, estes recursos eram distribuídos aos empregados que por isto mesmo eram engajados na campanha.
O homem tinha tudo escriturado. Compras só com três orçamentos, com assinatura e carimbo do sindico e concordância do conselho fiscal.
Por isto, as coisas não andavam como deviam. A simples compra de essência de eucalipto para a sauna demorava uma semana.
Para agilizar o processo mandou fazer carimbos para priorizar as tarefas: urgente e urgentíssimo.
Para auxiliá-lo, contratou um estagiário de administração, obcecado por estatística. O garoto tinha um prato feito.
Registros era o que não faltava. Faltas de empregados, cadastro de moradores e veículos, registro de visitantes, consumo de água e energia, coleta seletiva de lixo e etc.
O burocra delirava com as estatísticas do estagiário com médias, desvios, gráficos e etc.
Tinha até o consumo de papel higiênico por empregado.
E fazia questão de publicá-las.
Certa feita, uma moradora verificando a estatística de material reciclado por andar e com abertura por material, ficou intrigada no item preservativo.
Consumo médio mensal de oito unidades no andar.
Ocorre que nos quatro apartamentos por andar moravam: um casal sexagenário, uma viúva idosa, um padre, além dela e o marido.
Com ela tinha feito a ligadura de trompas, após o segundo filho, e duas vezes por semana ela ia com os pequenos para a casa da mãe num bairro distante, ela ficou desconfiada.
Começou então o cruzamento de dados naquela imensidão de informações.
Verificando o livro de visitantes e as estatísticas, percebeu que nos dias que ela estava ausente, uma mesma mulher era recebida pelo morador, seu marido.
De um bate boca partiu-se para a separação judicial, após a demissão do administrador burocrata.
O morador em questão era o síndico.

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