quarta-feira, 26 de junho de 2013

O Cirurgião Boxeador


No nosso prédio moravam muitos profissionais liberais, tais como advogados, engenheiros e principalmente médicos. Estes eram das mais diversas especialidades, tais como, pediatras, ortopedistas, anestesistas e cirurgiões. Isto era bom, porque facilitava a vidas dos condôminos as voltas com os seus problemas de saúde. Estes profissionais eram um achado para os moradores porque sempre os consultavam informalmente. Por causa das partidas de voleibol, a amizade entre todos fizeram com que os atletas tivessem apelidos. Tinha o João da vista, oftalmologista, o Zeca Vampiro, hematologista, o Murilinho quebra pernas, ortopedista e até mesmo o Ronaldo Xaninha, o ginecologista. Mas a nossa história de hoje foi com o Mauro Canivete, o cirurgião. Estressado ao extremo em função da especialidade, tinha plantões de vinte quatro horas em alguns hospitais da cidade. Os horários eram os mais diversos e as cirurgias tinham hora para começar, mas não para terminar. E o mais frustrante era que após uma cirurgia, que durava doze ou mais horas, às vezes muito bem sucedida, terminava com o falecimento do paciente por outras razões. Isto o deixava profundamente chateado. Num dos retornos de seu plantão, exausto, chegou por volta do meio dia, almoçou e foi descansar, já que por volta das vinte duas horas do mesmo dia, fora convocado para uma cirurgia de urgência. Ao começar a dormir foi surpreendido por um barulho seco e constante de uma bola batendo na pilastra do prédio. Como morava no segundo andar, o barulho incomodava demais. Levantou de imediato e foi a varanda da suíte verificar a causa do transtorno. Viu três garotos de cerca de dezesseis anos, batendo bola para o gol, que neste caso era a pilastra do prédio. Advertiu os moleques que precisava dormir e que eles usassem a quadra de esportes existente no prédio. A turma em vez de acatar o pedido, simplesmente continuaram a brincadeira e ainda o xingaram.  Ele de temperamento explosivo resolveu descer e tirar satisfações. Ele, quando jovem, tinha praticado o Box, tendo inclusive participado de algumas competições. Ao chegar, furioso, partiu para os garotos, que pareciam adultos, pelo porte. Dois deles ficaram na deles aguardando os acontecimentos. Mas o terceiro partiu para briga, sem mesmo respeitar a idade do homem com cerca de quarenta e cinco anos. O cirurgião, com uma direita, acabou com o nariz do brigão, que com o sangue jorrando, começou a chorar e pedir pela mãe. Os outros rapazes partiram em disparada. Como os pais do rapaz com o nariz arrebentado, estavam no trabalho, o próprio médico o levou a um hospital para fazer a cirurgia corretiva. Mais tarde, por volta das seis, retornou com o rapaz ao prédio. Embora tenha pedido desculpas pelo ocorrido, os pais não o perdoaram. Um processo longo e dispendioso se arrastou por anos. No final, o julgamento concluiu que o estresse motivado pelo tipo de atividade do médico, tinha sido a causa do problema. Foi determinada a distribuição de cestas básicas mensais às instituições de caridade determinadas pela justiça por um período de um ano. A vida voltou ao normal, mas no prédio todos passaram a respeitá-lo.

quinta-feira, 13 de junho de 2013


O Furto de Água


O nosso prédio, com cento e quarenta apartamentos tem um consumo de água bastante expressivo. 

Coisa de uns setenta mil litros por dia, considerando um consumo médio de quinhentos litros por unidade. 

E o valor da conta e bastante alto,  cerca de vinte mil reais por mês, a valores de 2013. 

Na maioria dos prédios é a mais relevante conta do condomínio, superando até mesmo a folha de pagamento. 

Por isto mesmo e motivo de preocupação e monitoramento diário para evitar desperdícios. 

Certa feita, no fim de semana que inicia o carnaval, fomos surpreendidos pela concessionária local que estaríamos sem abastecimento de água durante todo o feriado que se prolongaria ate a quarta feira de cinzas. 

Isto era necessário para que eles providenciassem reparos na rede. 

E o período tinha sido escolhido exatamente por ser um feriado prolongado onde a maioria das pessoas viaja. 

Neste contexto restou fazer um alerta a todos os moradores e iniciar um racionamento em horários pré-definidos.  

Na própria sexta feira iniciamos o racionamento. 

Ocorre que os moradores viajaram em horários os mais diversos: pela manha, à tarde e a maioria à noite. 

Muitos deles, dezoito para ser mais exato, tentaram usar as torneiras antes de viajar e como não tinha água em razão do racionamento, esqueceram de fechar as mesmas. 

Na manhã de sábado é que percebemos o problema, já que a água escapava rapidamente das caixas, fazendo com que a nossa reserva nas cisternas, existentes no subsolo, ficassem comprometidas. 

Não houve outro jeito, chamamos um chaveiro e junto com testemunhas arrombamos os dezoito apartamentos para fecharmos as torneiras dos lavatórios e cozinha que se encontravam abertos. 

Era fácil perceber quais os apartamentos apresentavam este problema, bastando colocar o ouvido na porta de serviço, uma vez que, com prédio vazio o silencio era total. 

A conta do chaveiro foi colocada em cada um dos apartamentos infratores e era bastante salgada, pois se tratava de uma emergência.  

Sabíamos que teríamos problemas quando do retorno desses moradores, mas não tivemos alternativa. 

Mas isto não era tudo. O pior viria no domingo de carnaval. 

A água simplesmente acabou. 

Comprar pipa de água, nem pensar. 

Além de muito caro, o volume por carro pipa é muito pequeno face ao tamanho de nossas caixas. 

Foi a maior confusão. 

Uma parte dos moradores debandou viajando para casas de amigos ou mesmo uma pousadinha na montanha que tivesse ainda vaga. 

Mas uma grande parte ficou. 

Começamos então uma operação de guerra, usando a água da piscina, tirada com baldes para usar nos vasos sanitários, naquela altura, impróprios para uso. 

Todos passaram a comer em restaurantes. 

Apesar dos problemas, a turma não deixou de relaxar a beira da piscina. Afinal era Carnaval. 

Entre uma cerveja e outra verificamos que o prédio ao lado do nosso, que estava em construção, na verdade, já se encontrava pronto, embora sem moradores, uma vez que faltava a ligação de força (energia) pela concessionária local. 

Resolvemos ir ate lá onde falamos com o vigia que muito gentil nos deixou entrar. 

Para nossa surpresa, a cisterna do mesmo estava com água até a boca, por que a ligação de água já tinha sido providenciada. 

Até as bombas de recalque já estavam instaladas. 

Então tivemos a brilhante ideia de furtar esta água bendita. 

Mas tinha um problema: não tinha energia para fazer as bombas funcionarem. 

E mais outro: como levar a água até o nosso prédio. 

E tinha o vigia. Este foi o mais fácil. 

Com uma  pequena contribuição ele não faria nenhuma objeção. E então começamos a engenhar o nosso plano. 

Pensando em grupo foi mais fácil e logo chegamos a solução. 

Caso conseguíssemos fazer as bombas funcionarem, levaríamos água ate as caixas d’água da cobertura do prédio. 

Dai pela tubulação de incêndio do térreo ligaríamos as mangueiras de incêndio que são articuladas, até a cisterna do nosso prédio ao lado.  

Isto exigiria também, que depois de usadas, as mangueiras deveriam ser completamente secas, o que era problema para depois.  Mas como fazer as bombas funcionarem? 

O sistema de bombas exigia muita energia e precisaríamos de um cabo resistente e grande,  com cerca de cem metros, para podermos liga-lo a nossa rede de energia.  

Mas como era domingo, não tínhamos nem onde comprar o cabo e se esperássemos a segunda feira. seria inviável praticar o furto à luz do dia.  

Mas um dos moradores que trabalhava numa empresa de construção  civil, resolveu nos ajudar, indo até a mesma, buscar uma gambiarra muito usada nas obras para ligar equipamentos. 

Ligado os cabos, bombas funcionando, abrimos os registros de incêndio e nossa cisterna começou a encher. 

O plano tinha sido um sucesso. 

Depois, com as cisternas e caixas cheias, fomos ao mercado comprar mantimentos e cerveja, para o nosso churrasco de comemoração, que durou até a quarta feira de cinzas.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Tiros na Quadra de Esportes.


O Brasil vivia uma febre de esportes, principalmente o voleibol. Equipes do país ganhavam campeonatos e isto era notícia diária. 

Seleções masculina e feminina levavam o publico ao delírio. 

As transmissões ao vivo era o que garantia o faturamento das emissoras e dos anunciantes. 

Por isto mesmo, o nosso prédio foi concebido para acolher estes torcedores fanáticos por esportes. 

Tinha a uma quadra de esportes poliesportiva para voleibol, basquete e futebol de salão. 

A de basquete quase nunca era usada e a de futebol de salão as vezes. Mas a de voleibol bombava. 

Era praticamente impossível jogar na quadra. 

Ou você pertencia a uma turma ou nada feito. 

Mesmo assim eram constantes as brigas por horários disponíveis. 

Neste contesto era comum o uso da quadra até altas horas, embora o regulamento fixasse em até as vinte duas horas.  

Isto porque as turmas que perdiam sempre queriam uma revanche. 

Isto acontecia praticamente todas as noites e as reclamações não paravam. 

O zelador, coitado, morando no prédio, até tentava convencer os esportistas a cumprir o regulamento. 

Mas não tinha jeito, era até ameaçado. 

O sindico para não se aborrecer, deixou levar, até porque o barulho não o incomodava, já que o apartamento dele era no outro bloco, em direção oposta à quadra.  

Uma noite, um vizinho, morador do primeiro andar, de frente para a quadra e com dois filhos muito pequenos, resolveu reclamar diretamente com os esportistas. 

Ocorre que além do barulho dos gritos e palavrões que acordavam os seus pimpolhos  frequentemente a bola caia em sua varanda, justamente na suíte do casal. 

A galera usava o poste dos refletores de iluminação para galgar a sua varanda para pegar a bola. 

As vezes até flagrando o casal em suas intimidades. 

Ele, desesperado, primeiro partiu para uma solução engraçada. 

Passou graxa de automóvel na parte superior do poste que dava acesso a sua varanda. 

A garotada subia para pegar a bola e quando estavam quase lá, escorregavam direto para o chão, além de saírem sujos de graxa. 

A turma tinha então que ligar o interfone para ele pedindo a bola. 

Ele só a devolvia no dia seguinte o que inviabilizava a continuidade do jogo. 

Este clima de tensão só incitava os ânimos. 

Mas esta noite estava fadada para o pior. 

O morador chegou cansado do trabalho e as crianças estavam com dificuldades para dormir. 

Depois de um bom tempo, finalmente elas pegaram num sono de anjos. 

Mas durou pouco. 

Brigas e arremessos fortes na bola fizeram as crianças acordarem aos gritos de choro. 

O morador, indignado, chegou na varanda aos berros pedindo que parassem o jogo. Isto já passava da meia noite. 

Os jovens adolescentes, inclusive as garotas que sempre assistiam às partidas da arquibancada, responderam em coro: “vai dormir velho veado”. 

Isto para um nordestino é uma ofensa muito grave. 

Dizem que no nordeste não tem “gay”. Vieram todos para o Rio de Janeiro e São Paulo. 

E esta piada enfurecia ainda mais o homem.   

E o cara nem era assim tão velho, perto dos quarenta. 

Mas para a moçada isto já é idade de ancião. 

Como ele, quando jovem, tinha sido militar, possuía um porte de arma, e uma pistola “Magnum” de quinze tiros. 

Além disto era praticante, nos fins de semana, de um clube de tiro. 

Raivoso, de arma em punho, desceu pelas escadas sem mesmo esperar pelo elevador. 

Lá chegando deu dois tiros para o alto e metralhou um dos refletores. 

A garotada em bando subiu aos gritos para os seus apartamentos.  

No outro dia a confusão estava formada. 

Pais indignados queriam dar parte à polícia. 

O síndico, um vaselina costumaz, botou panos quentes. 

E a coisa foi esfriando embora o relacionamento dele com o resto dos moradores era de desprezo total. 

Numa reunião de condomínio para tratar do caso ele pediu desculpas e ficou de pagar pelo refletor abatido a tiros. 

Mas uma coisa ficou para sempre: o apelido dado pela garotada: “Billy de Kid”. Atira primeiro, conversa depois.  

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Roubo de gasolina.


Na  época, durante os anos 80 era comum o racionamento de gasolina. 

Os postos fechavam as vinte horas das sextas feiras e só voltavam a funcionar na segunda as seis horas da manha.

Isto causava um um tormento para os proprietários de veículos. 

Para os que precisavam viajar era um problema ainda maior. Isto sem contar com os constantes aumento nos preços dos combustíveis, fazendo que ao anuncio de aumento na televisão, imediatamente filas quilométricas se faziam para abastecer. 

É que o aumento  tinha validade para zero hora do próximo dia. Dai as filas. Por tudo isto, gasolina era como ouro. 

Tinha ate aqueles que armazenavam em seus próprios apartamentos pondo em risco todos os moradores. 

E tinha também aqueles que furtavam, nas garagens, durante a madrugada. 

Eles arrebentavam a tampa do deposito de combustível e com uma mangueira, chupavam o mesmo até que por força da gravidade transferiam o mesmo para um balde. 

Depois faziam a operação inversa, colocando no próprio carro. 

Os mais espertos furtavam no máximo cinco litros de cada veículo de forma que os proprietários não percebessem. 

Este problema acontecia em quase todos os prédios grandes da região. 

Como ainda não existiam câmeras era praticamente impossível pegar os gatunos, mesmo que com a ronda noturna dos vigias que dormiam mais do vigiavam. 

Certa noite, um porteiro precisou ir ao banheiro. 

Era madrugada, e quando retornou ao posto percebeu um movimento de baldes e mangueiras onde um jovem de seus dezoito anos furtava gasolina de um veiculo de outro morador. 

O sindico foi chamado e por se tratar de um jovem, chamou o pai do rapaz. 

E o pai, desceu à garagem e falou direto para o sindico: tome as providenciam devidas. 

Complementou: ela já é de maior e por isto mesmo chame a policia. 

O sindico ficou estupefato com a atitude do pai. 

Mas sabe-se lá o porque dessa atitude. 

Provavelmente o rapaz já tivesse aprontado muitas outras. 

O sindico então para evitar escândalos foi com o gatuno em seu próprio carro, junto com a testemunha, no caso o porteiro.  

Lá chegando depois de tudo explicado o delegado colocou o gatuno numa cela ao lado de outra com cinco bandidos violentos e mal encarados. 

Assobiarem para o rapaz e pediram ao delega para deixar o garotinho com eles. 

Assustado o moleque não dormiu. 

O delegado explicou ao síndico que não lavraria a ocorrência para que a ficha do rapaz manchasse  o inicio de sua vida adulta. 

Disse que o soltaria na manhã seguinte depois de uma dura preleção e com ameaça de  dormir junto com os outros presos em caso de reincidência. 

Realmente os furtos acabaram não só  pela noticia bem como os boatos entre os jovens. 

Pouco tempo depois a família se mudou e não tivemos mais noticias mas sempre esperando que a lição tenha tido efeito.



domingo, 26 de maio de 2013

O Administrador Burocrático


O nosso prédio, com 140 apartamentos, tinha porte para fazer a sua própria administração. 

A contratação de uma administradora era inviável e onerosa. 

Tínhamos até sala de administração. Com telefone, fax e computador só faltava contratar um a administrador.  

E assim fizemos. O sujeito era até competente, mas extremamente burocrático. 

Percebemos isto na primeira Assembléia do condomínio, após a sua contratação. 

Ele foi designado secretário, e como tal encarregado de fazer a ata. 

O presidente da Assembléia, de nome Diogo, aguardava pela bendita ata, para assiná-la, já que se passava mais de um mês da realização da mesma, e ele pretendia viajar de férias. 

Finalmente o documento chegou e o sr. Diogo liberou a mesma para publicação formal. 

Antes de publicar o administrador percebeu que o nome do presidente saiu como Digo e não Diogo. 

Como o homem tinha viajado  e só retornaria depois de um mês ele resolveu colocar um ”em tempo” ao final da redação. 

Assim o fez: onde digo digo, não digo digo, digo Diogo""

E foi objeto de piadas e gracejos. 

Já na época, vislumbrando o ambiente de câmeras em todo o prédio, que via em filmes americanos, solicitou ao síndico uma câmera fotográfica para registrar os fragrantes. 

Autorizado, começou a fotografar tudo: carros mal estacionados, lixo fora da lixeira e etc. 

Mas tinha um problema. As fotos eram reveladas. 

Por causa disto, ele comprava filmes de doze poses, para usar mais rapidamente

Para usar o filme todo ele gastava cerca de um mês para depois mandar para a revelação que durava três dias.

Por isto mesmo as fotos de carros mal estacionados, às vezes, não poderiam mais ser usadas, porque pelo tempo, já tinham sido vendidos, ou os moradores se mudado. 

Outro ponto foi a exigência para que os porteiros usassem ternos e gravatas em pleno calor do Rio de Janeiro. 

Explicava que isto dava um tom mais austero ao condomínio. 

O homem também era amante da natureza. Preocupado, já naquela época com a situação ecológica do planeta. 
I
Implantou um sistema de coleta seletiva de lixo, com depósitos dos mais diversos: papelão, vidros, latas de alumínio, metais, lixo orgânico, material de higiene pessoal como preservativos, absorvente e etc. 

Até um sistema de coleta de óleo de cozinha, que como sabemos é altamente poluente e prejudicial ao esgotamento de águas do prédio provocando entupimentos. 

E ele fazia isto com garra, publicando avisos e cartazes por todo o prédio. Era um percussor dos ecologistas de hoje. 

O material recolhido era vendido e o valor era depositado numa caderneta de poupança. 

No final do ano, no natal, estes recursos eram distribuídos aos empregados que por isto mesmo eram engajados na campanha. 

O homem tinha tudo escriturado. Compras só com três orçamentos, com assinatura e carimbo do sindico e concordância do conselho fiscal. 

Por isto, as coisas não andavam como deviam. A simples compra de essência de eucalipto para a sauna demorava uma semana. 

Para agilizar o processo mandou fazer carimbos para priorizar as tarefas: urgente e urgentíssimo. 

Para auxiliá-lo, contratou um estagiário de administração, obcecado por estatística. O garoto tinha um prato feito. 

Registros era o que não faltava. Faltas de empregados, cadastro de moradores e veículos, registro de visitantes, consumo de água e energia, coleta seletiva de lixo e etc.  

O burocra delirava com as estatísticas do estagiário com médias, desvios, gráficos  e etc.  

Tinha até o consumo de papel higiênico por empregado. 

E fazia questão de publicá-las. 

Certa feita, uma moradora verificando a estatística de material reciclado por andar e com abertura por material, ficou intrigada no item preservativo. 

Consumo médio mensal de  oito unidades no andar. 

Ocorre que nos quatro apartamentos por andar moravam: um casal sexagenário, uma viúva idosa, um padre, além dela e o marido.  

Com ela tinha feito a ligadura de trompas, após o segundo filho, e duas vezes por semana ela ia com os pequenos para a casa da mãe num bairro distante, ela ficou desconfiada. 

Começou então o cruzamento de dados naquela imensidão de informações. 

Verificando o livro de visitantes e as estatísticas, percebeu que nos dias que ela estava ausente, uma mesma mulher era recebida pelo morador, seu marido. 

De um bate boca partiu-se para a separação judicial, após a demissão do administrador burocrata. 

O morador em questão era o síndico.




terça-feira, 21 de maio de 2013


A moradora fogosa e o zelador português.

O zelador do prédio era o sr. Manuel, um português de Trás dos Montes, casado com a Dona Maria também da mesma região. 


Moravam no apartamento destinado ao zelador no térreo. 

Além de zelador  o seu Manuel era um faz tudo, consertando e fazendo pequenos reparos nos apartamentos dos moradores em troca de pequenas gorjetas que ajudavam no orçamento doméstico. 

Como não tinham filhos, a Dona Maria trabalhava como doméstica em um dos apartamentos. 

Numa ocasião, mudou-se para o prédio, um casal jovem e sem filhos. 

Ela, Gisele, uma loira, alta, de olhos azuis, falante e com um olhar de malícia.   

Ele, Roberval, reservado, trabalhava em plataforma de petróleo, com regime de quinze dias embarcado e quinze dias em terra. 

Como a Gisele não trabalhava, ficava angustiada nos períodos que o Roberval estava embarcado.  

Os dias não passavam e ela sem nada para fazer, ficava horas a ver novelas e revistas pensando em besteiras. 

Certa feita houve um vazamento na pia da suíte do casal. 

Ela apelou para o seu Manuel que providenciasse o conserto, marcado para o fim da tarde, quando largasse o serviço.  

Por volta das cinco horas da tarde, apareceu o seu Manoel devidamente equipado com a sua caixa de ferramentas. 

Abaixado para verificar o vazamento foi surpreendido sendo apalpado e abraçado por trás.

A levantar-se foi agarrado pelo pescoço e beijado. 

Assustado gritou: Ai Jesus, a Maria não pode saber. 

O português, na própria cama de casal, acalmou aquela potra fogosa no cio. 

Depois, um pouco cansado, providenciou o conserto, que era bem simples. 

Apenas a troca da carrapeta da torneira. 

Na mesma semana a torneira voltou a pingar e lá ia o seu Manoel fazer o conserto.  

Isto acontecia três e às vezes quatro vezes, nas quinzenas que o Roberval estava embarcado. 

Era engraçado que no período que o marido estava em casa, a torneira não pingava e nenhum reparo era necessário. 

Talvez era porque o Roberval mesmo fizesse o serviço, se é que vocês me entendem. 

A vida foi tocando, mas sorrisos e olhares marotos no elevador por parte da Gisele e o eu Manoel, começaram a aguçar a curiosidade das fofoqueiras de plantão, moradoras do prédio. 

Esta desconfiança chegou ao conhecimento de Dona Maria, que os flagrou na garagem, combinando outro conserto. 

"Oh Benedito", gritou ela,  com fúria: este canalha esta me traindo com esta cadela. 

Sou uma corna, disse e passou a bater no seu Manoel com raiva. 

Escândalo formado, não restou ao síndico, demitir o Manoel, dando-lhe três dias para que desocupasse o apartamento. 

O mesmo ocorrendo com a Dona Maria.

Gisele, aproveitando que o marido tinha  acabado de seguir para a plataforma, procurou um apartamento na praia num bairro distante. 

Entregou o apartamento, já que eram inquilinos, e tratou da mudança. 

Com se falavam, via rádio, uma vez por semana, explicou a Roberval que estava fazendo isto em razão da melhor qualidade de vida para o casal. 

Quando chegou, na semana seguinte, foi direto para o novo apartamento na praia. 

E a vida foi seguindo e não tivemos mais noticias do casal e dos vazamentos.